Bem Vindo!

TRANSEUNTES

Criado em abril de 2012, o grupo de pesquisa"Transeuntes: Estudos sobre performance e Teatro performativo" foi formado a partir da necessidade de artistas em ampliar os estudos sobre as intervenções performáticas nas ruas. Em parceria entre Professores e Alunos do Curso de Teatro (COTEA) da UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei), o projeto consiste, entre outros pontos, em estudos teóricos sobre determinados autores que abordam o teatro nas ruas e em experimentações práticas que visam inserir o espectador transeunte na construção dos processos criativos, a partir das temáticas referentes às abordagens atuais. A pesquisa tem como principal objetivo investigar as propostas de estreitamento entre a cena contemporânea e o espectador transeunte nas ruas de São João Del-Rei, visando analisar a inserção do público como participante das ações performáticas, na busca de:

(...) Utilizar o ambiente urbano de maneira diferente das prescrições implícitas no projeto de quem o determinou; enfim, de dar-lhe [espectador-cidadão] a possibilidade de não assimilar, mas de reagir ativamente ao ambiente. (ARGAN, 1998, p. 219)

Os membros atuais do grupo Transeuntes são:

Professores - Ines Linke e Marcelo Rocco.

Alunos - Débora Trierweiler; Diego Souza; Diogo Rezende; Fernanda Junqueira; Gabriela Ferreira; Guilherme Soares; Halina Cordeiro; Henrique Chagas; Isabela Francisconi; Kauê Rocha; Nathan Marçal; Paula Fonseca; Rick Ribeiro; Tatiane Talita.

domingo, 3 de abril de 2016

URBANIDADES INTERVENÇÕES: XII SEMEX - UFSJ - 2014

URBANIDADES: INTERVENÇÕES URBANAS[1]

Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi[2]; 
Ines Karen Linke[3];
Iolanda de Lourdes de Santos Tomé[4] 
Luis Carlos Firmato Silva Lebre[5].

Curso de Teatro
Departamento de Letras, Artes e Cultura

Resumo: O projeto de extensão “Urbanidades: Intervenções” nasceu em 2012 através do diálogo entre os professores Ines Karin Linke Ferreira e Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi do Curso de Teatro- COTEA (UFSJ), e se fundamenta em ações desenvolvidas anteriormente por ambos. Em primeira instância, o projeto partiu da realidade cotidiana e da memória pessoal de moradores da cidade e demais participantes para criar um repertório de materiais e pontos de partidas para as ações artísticas. Foram realizadas experiências de imersão através de intervenções performáticas por parte dos estudantes, bolsistas e voluntários que entraram em contato direto com os transeuntes, moradores, nosso público alvo neste projeto. Tais trabalhos foram construídos pelo projeto de extensão em parceria com o grupo de pesquisa “Transeuntes- Estudos sobre performance”, da mesma coautoria.

Palavras-Chaves: Intervenções urbanas; Espectador transeunte; Cidade; Espaço público.

INTRODUÇÃO
A noção de “cotidiano” está diretamente atrelada a uma infinidade de ações diárias, entendidas como práticas comunicativas que se organizam em um amplo movimento de conservação ou de mudança de aspectos da sociedade, permitindo assim, sucessivos acontecimentos da vida social. Pode-se dizer que o cotidiano é constituído por múltiplas experiências que ocasionam transformações tanto em aspectos locais, quanto em escala global (GIDDENS, 1995).
Sendo assim, o cotidiano abrange as rotinas diárias das sociedades, as diferentes formas de convívios entre os cidadãos, e novas relações sociais, cujos resultados podem ser mudanças e adaptações à vida na comunidade (BRETAS, 2006). Deste modo, o cotidiano, associado às experiências entre os seres, reveste-se de tradições, deslocamentos, rupturas, compreendendo em si os saberes ordinários, necessários à sobrevivência, como também as produções intelectuais (CERTEAU, 1994).
Neste aspecto, a vida cotidiana se configura na interação com o outro, nas diversas formas de representações culturais, advindas das experiências dos participantes dos processos comunicacionais. As práticas do cotidiano fazem, também, emergir as funções normativas da sociedade, possibilitando certo equilíbrio nos laços sociais. Com isto, o cotidiano passa a ser atravessado por instituições (religiosas, legais, familiares, etc.) consideradas agências reguladoras que estabelecem as relações de controle com a comunidade. Tais instituições influenciam os hábitos sociais, os comportamentos individuais, as práticas de comunicação. Estes aspectos de conservação, de restrição e de cooperação dos aprendizados cotidianos, garantem certo equilíbrio e atuam na tentativa de controle na dinâmica da vida social.
No contexto do cotidiano, pode-se dizer que a rua, dentro da ótica da sociedade burguesa, foi criada, inicialmente, para viabilizar a circulação dos cidadãos entre diferentes partes da cidade, mas, devido ao crescimento da urbe, ela foi contraindo inúmeras outras funções (CARREIRA, 2007). A rua, juntamente com os demais espaços públicos, tais como as praças, passou a ser vista como local de encontros e manifestações de grupos, propiciando diálogos, embates, e até momentos de lazer. Ou seja, a rua tornou-se um território vivo dentro do eixo urbano, repleta de tensões e vontades por parte dos sujeitos que passam por ela, resultando diferentes formas de utilização e compreensão de seu uso contínuo. Como eixo de passagem dos transeuntes, a rua e os espaços públicos podem ser vistos também como passarelas de identidades, reflexão e energias compartilhadas, testemunhando diferentes formas de vida. No entanto, o capitalismo contemporâneo tende a diminuir o poder investido à rua, sobretudo nos grandes eixos urbanos, deixando-a apenas como mero lugar de deslocamento dos cidadãos, ou pior, dando a ela o caráter estritamente comercial de compra e venda de produtos, bem como, de circulação do trabalhador no sentido casa-trabalho, e vice-versa. Com isto, a rua que, no início da sociedade burguesa, assumia, entre outras funções, um meio de encontro, hoje se vê, muitas vezes, reduzida à mercadoria, redimensionando o cidadão às funções de trabalhador e de consumidor, não restando assim, muitos espaços que escapem às leis do mercado (DEBORD, 1997).
No que concerne às cidades, sobretudo as grandes metrópoles, os espaços públicos vêm se transformando em locais cada vez mais monitorados, assépticos, para que não haja grandes interferências que possam corromper o fluxo da mercadoria, bem como, a manutenção da cultura hegemônica. Esta tentativa de controle de utilização dos espaços cotidianos entra em constante colisão com os desejos dos cidadãos que visam escapar, apropriar e desmembrar ordens prévias do sistema hierárquico, provocando simultâneas tensões, disputas e manifestações que desafiam certos discursos estratificados de poder. Tal inconformismo perante a institucionalização do uso da rua e demais espaços públicos, que visa definir “quem” e “quando” usar tais locais, gera em parte dos cidadãos, o anseio de preencher tais espaços com ações alheias ao ritmo usual da cidade. A partir de diversas formas de ocupações e mantendo a liberdade de uso da rua como ideário político, muitos grupos sociais se movimentam na contramão da lógica predominante, criando alternativas para consumir a cidade.
Misturadas entre as várias possibilidades de manifestações públicas, as intervenções urbanas têm ganhado, ao longo das últimas décadas, grande destaque entre os grupos sociais. Sobre as diferentes noções de intervenções urbanas, pode-se associá-las aos estados de rupturas do cotidiano, desconstruindo certas formas dos espaços já sedimentados das grandes construções. Espaços estes que o poder do capital proporciona. Sendo assim, as intervenções podem provocar o cerceamento de certos padrões para aparecer novas formas de inter-relação entre os seres e a cidade (CARREIRA in CARREIRA et. al., 2004). Logo, elas são capazes de alterar as linhas que definem as cidades, exigindo um novo olhar dos cidadãos sobre as mesmas, nem que seja um olhar fragmentado, efêmero. Desta maneira, entende-se que as ruas das cidades passam a ser vistas como estruturas arquitetônicas de intenso convívio. Dentre várias possibilidades de manifestações públicas na cidade, podem-se ressaltar as intervenções urbanas que possuem como eixo central o cunho artístico, estetizador, unindo arte, política e ativismo em intervenções realizadas em espaços não destinados, necessariamente, para a mobilidade artística.  A respeito de tais aspectos, pode-se pensar o cotidiano como potência para diferentes discursos artísticos, cujos desdobramentos permitem provocar pequenas rupturas nas convenções diárias, modificando certas visões mecanizadas sobre a urbe.
O COTIDIANO E OS DISCURSOS DA CIDADE
Na contemporaneidade, o cotidiano das cidades está entrelaçado por diversas narrativas transmitidas como resultados das interações entre as pessoas. Os efeitos de tais interações interferem diretamente na produção do conhecimento e nas transformações sociais. No dia-a-dia, os fragmentos que compõem o tecido da memória são gerados pelo encadeamento dos discursos da cidade, em suas diversas esferas. Walter Benjamin (1994) descreve que a experiência de narrar é uma forma artesanal de comunicação, partindo das experiências pessoais do narrador. Partindo desta premissa, pode-se dizer que as narrativas circulam entre os grupos e redes sociais, ressignificando o cotidiano através das contextualizações dadas pelos seres que se comunicam. Como compreende Mikhail Bakhtin (1993), as narrativas são dialógicas, permeadas por fragmentos de discursos que articulam falas sociais em sintonia ou em contradição, sendo reconstruídas a partir de diferentes posicionamentos. Com isto, pensar o cotidiano como lócus de discursos contrários, de enfrentamento e de fricção de ideias, possibilita entendê-lo como um palco privilegiado de experiências com sentido renovado, em que o tempo presente acolhe o saber multicultural e multifacetado.
Inserido neste contexto, o projeto Urbanidades (UFSJ- Teatro) visa estreitar os laços entre a Universidade e a comunidade local, tornando as atividades e o conhecimento, produzidos dentro do Curso de Graduação em Teatro, acessíveis e em comunicação com a população. Sendo assim, o projeto de extensão “Urbanidades: Intervenções” é uma concepção de artes que visa a atuar no contexto ampliado da cidade e trabalhar as instâncias de percepção, discussão e divulgação de aspectos sociais e políticos de diferentes espaços de São João del-Rei por meio de intervenções artísticas, desenvolvidas através de uma abordagem participativa e interdisciplinar.
“Urbanidades: Intervenções” nasceu em 2012 através de um diálogo entre os professores Ines Karin Linke Ferreira e Marcelo Eduardo Rocco de Gasperi do Curso de Teatro- COTEA (UFSJ), e se fundamenta em projetos e ações desenvolvidos anteriormente por ambos, na continuação do projeto de extensão, iniciado em 2013. Em primeira instância, o projeto partiu da realidade cotidiana e da memória pessoal de moradores da cidade e demais participantes para criar um repertório de materiais e pontos de partidas para as ações. Foram realizadas experiências de imersão através de intervenções performáticas por parte dos estudantes, bolsistas e voluntários que entraram em contato direto com os transeuntes, moradores, nosso público alvo neste projeto. Tais trabalhos foram construídos pelo projeto de extensão em parceria com o grupo de pesquisa Transeuntes- Estudos sobre performance, da mesma autoria.
Nesta vontade de “troca”, foram criadas, em segunda instância, interações entre atividades cotidianas e ações culturais, uso e espaço, universidade e cidade, periferia e centro, entre outras, por meio de encontros e intervenções nas ruas da cidade, desenvolvendo intervenções urbanas e ações artísticas com alunos, bolsistas, voluntários e moradores.
Tais intervenções geraram o eixo temático que norteou o projeto: Consumo, consumismo e cidadania. Tal temática estabeleceu as novas ações do projeto, derivadas a partir das paisagens, objetos, arquiteturas, espaços, monumentos e costumes da cidade de São João del-Rei, tanto em partes históricas como em lugares considerados “não históricos” pelos moradores.
Nesses lugares simbólicos foram criadas, através de materiais de circulação e produção de práticas, diferentes formas de apreensão do cotidiano da cidade, particularmente, no campo da percepção estética, e da recepção das obras.
Com isto, as intervenções artísticas realizadas ao longo de 2013 gerou um produto considerado pelos autores do projeto como uma “Encenação Performativa” que nada mais é que uma apresentação cênica nas ruas e em espaços públicos, composta por experiências acerca do Consumo, consumismo e Cidadania, cuja linguagem norteadora é a Performance Art. Uma obra aberta que visa a participação do público, composto, em sua maior parte, por moradores da cidade.
METODOLOGIA
As narrativas cotidianas compõem um conjunto de experiências que se agrupam ou se distinguem, possibilitando a formação de diferentes ideologias, em um fluxo ininterrupto de vida (CERTEAU, 1994). Esta complexidade de discursos articula processos de construção de identidades distintas, abalando convenções vigentes e estruturando novos laços de socialização. Tais laços constroem no indivíduo diferentes perspectivas, confiança nas relações, novos pontos-de-vista e demais elementos constituintes da identidade, que, por conseguinte, tem um caráter processual, dado ao longo dos esforços de construção autônoma (HALL, 1996). Então, como pensar em narrativas artísticas dialogando com as narrativas das ruas, criando possibilidades de novos discursos a partir do confronto entre a obra e o espectador transeunte? As intersecções potencializam os posicionamentos dos seres no mundo, gerando consciência sobre os processos sociais. A ocupação de espaços públicos e a interrupção do fluxo cotidiano questionam e pontuam questões sociais, na busca da “participação [do espectador] como auto-experiência e auto-reflexão” (LEHMANN, 2007, p. 171). Sendo assim, a metodologia de trabalho tem sua base no campo da investigação teatral compartilhada, tendo a coautoria entre os diversos criadores (estudantes, moradores, atores), em parceria com um grupo de pesquisa chamado Transeuntes. 
Criado em abril de 2012, inserido no âmbito do projeto de extensão Urbanidades, o grupo de pesquisa "Transeuntes: Estudos sobre performance" foi formado a partir da necessidade de artistas em ampliar os estudos sobre as intervenções performáticas nas ruas. Em parceria entre Professores e Alunos do Curso de Teatro (COTEA) da UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei), o projeto consiste, entre outros pontos, em estudos teóricos sobre determinados autores que abordam o teatro nas ruas e em experimentações práticas que visam inserir o espectador transeunte na construção dos processos criativos, a partir das temáticas referentes às abordagens atuais. A pesquisa tem como principal objetivo investigar as propostas de estreitamento entre a cena contemporânea e o espectador transeunte nas ruas de São João Del-Rei, visando analisar a inserção do público como participante das ações performáticas.
Neste sentido, o projeto consiste em experimentações cênicas-performáticas que insiram o espectador transeunte na construção dos processos criativos, a partir das temáticas referentes às abordagens atuais.
DESENVOLVIMENTO
Urbanidades desenvolveu intervenções e outras experiências a partir de materiais coletados no cotidiano da cidade. Destacamos as seguintes ações: CAMINHADAS. Percursos em diferentes bairros das cidades, inspirados na deriva, a prática situacionista de criar percursos para apreender os ambientes. As caminhadas foram motivadas pela necessidade e pelo desejo de “praticar a cidade” visando criar uma experiência coletiva ligando interesses dos participantes nas discussões e compartilhando as práticas e os treinamentos em espaço público.
EXPERIMENTAÇÕES. A partir dos vestígios ao longo do córrego do Lenheiro criamos um roteiro ficcional de um assassinato. Queremos desenvolver a ação em um jogo/espetáculo no qual o publico investiga os motivos do crime a partir das diferentes perspectivas (vítima, assassino e testemunhas).
MERCADO DE TROCAS. Discutindo o valor de troca e uso. Fomos à feira de domingo de Matozinhos para vender produtos, objetos de uso e serviços. Interagimos com as pessoas que estavam dispostas a fazer uma grande variedade de negócios.
CASA: LIMITES DO CORPO. A partir da ideia da "Caminhada Performática" realizamos uma ocupação aberta ao publico em geral, dentro da lógica de ações intervencionistas, realizando construções temporárias e criando corpo-instalações.
ENCENAÇÃO MORRA! Sob as perspectivas da tragédia, consumismo e sensacionalismo, o espetáculo aborda a morte violenta de uma adolescente e o quanto a sociedade tenta lucrar com o evento, desde a representação sensacionalista nos veículos de comunicação aos comerciantes que vendem camisas com fotos da garota. A peça tem o objetivo de criticar a lógica do capitalismo e sua busca desenfreada pelo lucro, em que a morte vem se destacando como gerador de renda.

ESTUDO DE CASO: “MORRA!” - UM DOS EIXOS CENTRAIS DO PROJETO “URBANIDADES” DE 2013
Descrição do procedimento: Partindo do conto “Rremembranças da menina de rua morta e nua” de Valêncio Xavier[6], o procedimento consistiu em uma exposição de fotos de uma suposta menina que fora violentamente espancada e morta, enquanto seus objetos pessoais eram leiloados por um performer aos passantes nas ruas. O espectador poderia tirar fotos ao lado da menina morta, levando para casa um souvenir da mesma. Uma performer colocava seu corpo seminu ao chão, estendido ao lado de uma placa com os dizeres “estive com a menina morta e me lembrei de você”.
Diálogo com o público: o procedimento performático “A menina morta e nua”, construído em 2013 pelo grupo de estudos “Transeuntes” (UFSJ) no projeto Urbanidades, teve como eixos temáticos o sensacionalismo, o consumo e a tragédia, linhas cujos princípios são definidos pelo capitalismo contemporâneo que engloba as relações humanas sob o aspecto da mercadoria. “Transeuntes” se baseou em um conto chamado “Rremembranças da menina de rua morta e nua” (2006) de Valêncio Xavier, que traz em sua trama a história de uma tragédia anunciada: uma menina de rua que foi estuprada e morta em um trem-fantasma no interior de São Paulo. Mesclando ficção e realidade, Xavier revela o lucro imediato que a morte da menina traz aos jornais televisivos, aos comerciantes que vendem souvenires da menina, entre outros artefatos. Assim, a notícia de tal tragédia é consumida insistentemente pelos espectadores. Usando tal conto como base prévia da pesquisa cênica, o grupo “Transeuntes” criou uma ação em espaços públicos de São João del Rei (MG), cuja estruturação busca elementos próprios da performatividade para a concepção deste trabalho.
          O cidadão sanjoanense, enquanto transitava pelas ruas centrais da cidade descrita, se deparava com diversas fotos da “menina morta”, cujos anúncios nos jornais criados pelo grupo “Transeuntes”, visavam confundir o espectador sobre a veracidade do fato. A ação transcorria em frente ao Largo do Carmo, um espaço de intenso movimento na cidade. Um performer[7] narrava a suposta morte da menina, que fora espancada e estuprada naquela cidade. Posteriormente à narrativa, o mesmo performer leiloava os objetos pessoais da menina para lucrar sobre tal acontecimento. Em seus objetos de venda havia uma aparente patente criada: uma marca, cujo nome era “menina morta”, com todo o layout destinado a uma marca registrada de produtos postos em prateleiras. Os produtos eram variados: copos com fotos da menina morta, camisetas contendo fotos da menina com os dizeres “saudades de você”, objetos “pessoais” da menina, brincos, cremes de rejuvenescimento com o rosto da menina estampado no pote, etc. O espectador poderia ter tais produtos, levando para a casa um souvenir que lembrasse aquela dor, que remetesse à menina.
          Tal procedimento objetivou estabelecer um paralelo entre a ilusão e a realidade. Este entrecruzamento foi feito para se pensar sobre como a tragédia cotidiana das cidades pode ser estetizada diariamente pelas redes sensacionalistas, fazendo o espectador consumir diariamente a morte violenta entre outros acontecimentos, cujas esferas do lucro imediato são o mote para mover a engrenagem da notícia. Desta forma, o objeto de lucro era a própria menina morta, cuja humanidade se esvaía para que todos pudessem consumi-la na forma de mercadoria.
          A notícia de tal morte era manipulada pelo performer que ora demonstrava tristeza com o acontecimento e ora necessita vender a marca registrada gerada pelo tal fato, pois sem tal tragédia a venda dos produtos não aconteceria. A fronteira entre o real e ficcional se diluía ainda mais quando um performer[8] doava jornais cuja primeira página estampava o rosto da menina morta, noticiando tal fato. Os espectadores ora acreditavam na notícia, ora duvidavam, tentando adivinhar se aquele acontecimento advinha da teatralidade ou do âmbito real.  Tendo uma pesquisa sobre a ótica sensacionalista, “Transeuntes” visava mostrar que o real poderia ser colocado na ótica da ficção, e também que a ficção poderia também ser montada como realidade, em um jogo de encobrimento da verdade para o detrimento da verdade em si. A ideia de propor um fio condutor pautado na tragédia fez o espectador querer participar da ação, comprando souvenires da menina, deixando o performer realizar demonstrações gratuitas sobre as potências dos produtos, entre outras ações.
          Neste aspecto, a morte violenta da menina mostra como todos podem consumir e lucrar sobre tal acontecimento. Desde os repórteres sensacionalistas até os representantes comerciais com seus stands de vendas contendo fotos, camisetas e pôsteres da menina. A morte torna-se, então, um “espetáculo” no sentido debordiano da palavra, cujos desdobramentos operam diretamente ligados aos conceitos operativos de poder, do dinheiro, totalmente vinculados ao controle do capitalismo contemporâneo.
          Enquanto a venda dos produtos era aquecida pela ação dos performers frente ao público, outra performer[9] expunha seu corpo ao chão, cobrindo-o com jornais, atraindo os transeuntes para seu local de ação. Outro performer[10] do grupo se aproximava, deixando uma placa com os dizeres: “estive com a menina morta e me lembrei de você”, oferecendo ao público a possibilidade deste em tirar uma foto ao lado da menina. A ideia era mostrar uma obra aberta em que o espectador pudesse se aproximar, fazer uma pose ao lado da menina e receber, posteriormente, em sua casa ou por e-mail, tal foto como outro souvenir. O campo desta ação se mostrava disponível à contribuição do passante, fazendo com que o espectador pudesse ser colaborador da obra, agindo sobre a mesma com seu corpo, saindo da mera contemplação.
          Com isto, a frágil “menina” se tornou o fio condutor das ações do grupo “Transeuntes” neste espaço em que espectador e artista configuraram uma troca, um diálogo acerca da obra, em que o procedimento artístico era contaminado pelas impressões do espectador, dando um caráter de uma ação que não se encerra em si, mas que necessita do outro para dar continuidade à discussão. Com isto, “Transeuntes” revelava a frágil vida noticiada incessantemente pelos meios de comunicação, mostrando que todos nós podemos retirar um pedaço daquele corpo, deixando esvair sua potência de vida para ser apenas mais uma memória, mas um número noticiado em uma narrativa cotidiana de tragédia. Tal procedimento artístico objetivou mostrar como a morte pode ser noticiada constantemente até se tornar uma tragédia do outro, apenas alheia, na qual eu não tenho qualquer relação.
CONCLUSÃO
          Pensando acerca da lógica de tradição e mudança do cotidiano das cidades, “URBANIDADES” busca diferentes níveis de participação do espectador como condutor das ações artísticas realizadas na cidade de São João del-Rei (MG) e em outras cidades que o projeto se apresenta[11]. A ideia é construir diversos contornos sobre a cidade, diferentes formas de vê-la, objetivando ocasionar pequenas rupturas no movimento cotidiano, abrindo ligeiras frestas sobre o olhar, sobre a cidade. Os discursos hierárquicos da sociedade contemporânea, muitas vezes pautados na lógica de fluxo de mercadoria, são diluídos, mesmo que momentaneamente, a partir dos traços, das forças artísticas efêmeras que colidem sobre as noções sedimentadas de cidade. Cabe ao cidadão, que caminha pelas ruas e por espaços públicos, decidir por agir juntamente à obra artística ou não ser alterado por ela. Neste aspecto, ao ser interrompido por uma ação, o transeunte pode continuar sua caminhada na condição inicial em que se encontra ou se apropriar da mesma, trazendo seu corpo à obra para que este modifique também o ritmo habitual da cidade.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
BENJAMIN, Walter.  Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política (7ª ed.). São Paulo: Brasiliense, 1994.
BRETAS, Beatriz. Interações cotidianas. In: GUIMARÃES, Cesar; FRANÇA, Vera (Orgs.). Na Mídia, na Rua: Narrativas do Cotidiano. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2006. (p. 29-42).
CARREIRA, André. Teatro de Rua - Brasil e Argentina nos anos 1980: Uma paixão no asfalto. São Paulo: Aderaldo e Rothscild Editores, 2007.
______. Teatro de invasão: redefinindo a ordem da cidade. In: LIMA, Evelyn Furquim Werneck (Org.) Espaço e Teatro: do edifício teatral à cidade como palco. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2008. p.67-78.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
DESGRANGES, Flávio. A pedagogia do espectador. São Paulo: Hucitec, 2003.
BECK, Ulrich; GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista (UNESP), 1995.
FÉRAL, Josette. Por uma poética da performatividade: o teatro performativo. In: Sala Preta Revista de Artes Cênicas, n. 8, ECA/USP, p. 197-209. São Paulo: PPG Artes Cênicas – ECA/USP, 2008.
LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. Tradução de Pedro Süssekind. São Paulo: Cosac Naify, 2007. 440 p.
RANCIÉRE, Jacques. A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34, 2005.
REWALD, Rubens. Autor Espectador. São Paulo, 2004. Tese apresentada no Doutorado em Ciências da Comunicação, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.
XAVIER, VALÊNCIO. Rremembranças da menina de rua morta nua. In:______. Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 39-59.

___________________
[1] Trabalho apresentado na XII Semana de Extensão Universitária – SEMEX do XII Congresso de Produção Científica e Acadêmica da Universidade Federal de São João del-Rei.
[2] Professor Assistente do Curso de Teatro (UFSJ), coordenador atual deste projeto.
[3] Professora adjunta do Curso de Teatro (UFSJ), vice-coordenadora atual deste projeto.
[4] Iolanda de Lourdes é bolsista deste projeto, graduanda em Teatro pela Universidade Federal de São João Del Rei.
[5] Luis Firmato é bolsista graduando deste projeto, graduando em Teatro pela Universidade Federal de São João Del Rei.
 .
[6] XAVIER, VALÊNCIO. Rremembranças da menina de rua morta nua. In:______. Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 39-59.
[7] Luis Firmato
[8] Junio Carvalho
[9] Sabrina Mendes
[10] Pedro Mendonça
[11] Tais como Belém (PA), Fortaleza (CE), Araguari (MG), entre outras.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

SÉRIE DE ENTREVISTAS COM OS PESQUISADORES DO GRUPO TRANSEUNTES

PERGUNTAS
• QUAL O PERÍODO DE SUA ENTRADA NO GRUPO?
• QUAL (QUAIS) A(S) MOTIVAÇÃO (MOTIVAÇÕES) INICIAL (INICIAIS) QUE LEVOU VOCÊ A PARTICIPAR DO AGRUPAMENTO?
• SOBRE O FORMATO DAS REUNIÕES, ACERCA DAS DISCUSSÕES TEXTUAIS, PREPARAÇÃO PARA AS AÇÕES, ETC., COMO VOCÊ CONSIDERA A SUA PARTICIPAÇÃO? PODERIA PONDERAR? OU SEJA, COMO VOCÊ SE VÊ E SE MOVE DENTRO DO GRUPO?
• FALE UM POUCO SOBRE AS LINHAS DE PESQUISA QUE VOCÊ CONSIDERA IMPORTANTES DENTRO DO TRANSEUNTES, CONSIDERANDO TAMBÉM OS EIXOS DE INTERVENÇÃO URBANA, AS LINHAS TEMÁTICAS ACERCA DO FEMINISMO, GÊNERO, ENTRE OUTRAS. (FALE LIVREMENTE).
• SOBRE OS PROCEDIMENTOS ARTÍSTICOS QUE O TRANSEUNTES REALIZA NAS RUAS E EM DEMAIS ESPAÇOS PÚBLICOS, COMO VOCÊ PERCEBE A PARTICIPAÇÃO DOS PASSANTES? COMO O TRANSEUNTES AFETA A CIDADE A PARTIR DE PEQUENAS FISSURAS, AÇÕES EFÊMERAS, ETC.?
• FALE UM POUCO SOBRE A SUA PARTICIPAÇÃO NOS PROJETOS ATUAIS E AS REVERBERAÇÕES NO GRUPO .

DIOGO BRITO REZENDE
• 1º período (2015-1)
• Entrei para o grupo principalmente porque queria fazer parte e conhecer melhor algum projeto de extensão/pesquisa, e meus amigos mais próximos todos iam participar.
• Sei que não me coloco muito nas discussões – o que estou tentando mudar –, mas sempre busquei participar de todos os exercícios e ações propostas.
• Acho importantes principalmente as linhas de pesquisa ligadas à pressão social e ao poder que a sociedade tem sobre todos nós (desde da sociedade familiar até a global), em todos os âmbitos (mídia, religião, política, sexualidade, feminismo...), o que engloba os assuntos levantados tanto no Morra quanto no Deus é Fiel. E acho que seria muito interessante continuarmos nessa linha.
• Como fazemos teatro de rua performativo (se eu estiver errado, por favor me corrija), é mais o do que natural – e essencial – a participação dos transeuntes nessa experiência – o teatro só existe porque há essa conexão em tempo real entre os atores e o público (no nosso caso, os transeuntes). Acredito que o Transeuntes, de uma maneira ou de outra, acaba – seja por suas intervenções, performances ou espetáculos –, mesmo que minimamente, por afetar a cidade e seus habitantes. Toda ação, por menor que seja, tem uma consequência, e as nossas não são diferentes.
• Como disse anteriormente, tenho consciência que não me coloco muito nas discussões do grupo, e que estou tentando mudar, mas acredito que contribuí de certa forma para o espetáculo Deus é Fiel, principalmente – e isso é algo que me alegra – na “remontagem” do espetáculo, quando reorganizamos as cenas. Vou continuar tentando ajudar sempre no que eu sentir que posso melhor contribuir, e fico mais do que feliz em ficar a cargo, no ano que vem, de gravar nosso processo de construção do novo espetáculo para depois montar um vídeo.
DIEGO MACHADO
• Participo do grupo desde março de 2015.
• A necessidade de discutir e debater diversos temas que, de alguma forma, se relacionam com questões pessoais minhas, me incomodam e/ou provocam alguma curiosidade.
• Acredito que, em geral, minha participação foi positiva. Tentei me esforçar o máximo possível para desenvolver os exercícios propostos (mesmo não gostando de todos) e realizando as leituras necessárias para as discussões, para as quais tenho me esforçado bastante para aumentar minha contribuição.
• Acredito que todos os temas estudados pelo Transeuntes são de extrema importância, estão em evidência na sociedade, gritando por atenção. Em minha percepção, os temas que melhor foram discutidos pelo Transeuntes no último ano foram a arrecadação de lucro pela fé e a intolerância religiosa, porém sem deixar de abordar, mesmo que de forma superficial,  vários outros temas importantes.
• É muito perceptível um grande estranhamento nos transeuntes ao se depararem com atividades e ações tão diferentes do comum. Vejo este estranhamento como um aspecto muito positivo, pois a partir dele, muitas vezes, o transeunte é provocado a enxergar determinada coisa que até então não era vista (percebida) ou até mesmo a refletir sobre determinado assunto ou situação. Acredito que todas as ações afetam o olhar sobre a cidade, pois evidencia aquilo que muitas vezes não é evidente a quem “se acostuma”.
• Vejo a minha participação como algo mais importante para o meu crescimento pessoal e profissional do que para o grupo em si. Neste último ano, tudo foi novidade, logo, pude aprender mais do que contribuir.
Estar no grupo foi fundamental para que eu pudesse discutir questões que me incomodam e que nos cercam a todo momento. Talvez ai esteja uma das maiores importâncias pra mim, pois esta discussão não fica apenas na forma verbal, se transforma em imagens, em corpos e em ações, me fazem refletir e me trazem satisfação, por unir um tema que me incomoda com algo que me dá tanto prazer (teatro).
IOLANDA DE LOURDES
• Novembro de 2013.
• Sempre via algumas ações acontecendo na rua e isso me despertou interesse.
• Para mim, o grupo Transeuntes foi a coisa mais importante que fiz dentro da faculdade. Então minha dedicação foi máxima para as leituras e as discussões. Hoje os textos fazem parte do meu histórico de vida e pretendo seguir este caminho depois que me formar.
• O Transeuntes trabalha diretamente com as questões sociais na qual estamos todos envolvidos e de uma maneira muito direta e próxima já que suas ações e apresentações se encontram todas na rua para um publico acidental. Um publico que nem sempre ou nunca tem a oportunidade de ir ao teatro. Seja por questões culturais ou financeiras. Então o Transeuntes se coloca de forma democrática quando realiza suas ações, intervenções, do processo e espetáculo final.
• As questões da atualidade estão principalmente em torno do comportamento do corpo que deve obrigação a algo ou alguém sendo estes: estado ou religião.
• Os temas escolhidos pelas duas encenações que realizadas: MORRA! e DEUS E FIEL são reflexos da sociedade doente por consumo e domínio do corpo.
• O Transeuntes faz da rua sua ferramenta de trabalho. As leituras dos textos na rua, as ações propostas pelos integrantes na rua que dialogam diretamente com os transeuntes. Sejam esses olhando ou dialogando com o performer. Assim, o texto dramaturgo se constrói a partir desse dialogo entre publico e performer. Podemos dizer que o publico ajuda a construir a encenação final e ainda modifica - a quando ela e apresentada, pois o dialogo continua nessa apresentação (considerada aberta).
• Quanto ao espaço físico, o grupo trabalha seus corpos na rua utilizando-se  desses lugares despercebidos que servem de suporte de passagem. Trabalhados, eles têm outro significado a partir de sua manipulação diferenciada. Não e mais possível o publico/transeuntes não perceber tal espaço depois de sua (Re)utilização. 
• Atualmente, estou com a pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso então minha atenção esta inteiramente voltada para o mesmo. Mas o grupo me afeta diretamente pelo que trabalhei dentro dele. Minha investigação atual esta intrinsecamente ligada a rua e o tipo de encenação escolhida por mim, permeia o teatro performativo que e trabalhado no grupo Transeuntes. Meus textos atuais estão se encontrando com os textos do grupo. Através do grupo me interessei mais que nunca pelas questões politicas e sociais e assim pretendo continuar.
KAUE ROCHA
• Entrei no meu primeiro período, em março de 2015.
• Na primeira semana de aula, o Transeuntes foi apresentado em uma aula de exposição dos projetos do curso de Teatro. Nunca tinha tido contato com performance, e isso me interessou muito em participar do grupo. A fala sobre a temática do espetáculo MORRA - MAS ANTES APROVEITE NOSSAS LIQUIDAÇÕES feita na aula também me levou a procurar o grupo, pois gostei do tema trabalho, sabendo que um novo espetáculo com uma boa temática estaria sendo trabalhado.
• Acredito que tenho mais facilidade nos momentos de discussão teórica. Como disse na segunda questão, tive com o Transeuntes meu primeiro contato e experiências com a performance. Através dos textos, pude conhecer ainda mais, e debatê-los nas reuniões foi de extrema importância, pois através dos fluxos de ideias e considerações conseguia aprender mais. Também sempre me coloquei nas preparações para as ações; porém, de modo mais tímido, discreto, talvez por não ter tanta experiência.
• Gosto de nosso contato com a rua, com o transeunte. É muito forte para mim ir até o espaço urbano e ressignificá-lo, tirar dele novas impressões, funções. Tirar o teatro de espaços institucionalizados e usar da cidade para fazê-lo. Atrair os passantes, pará-los de seu percurso para observar. Adentrar espaços acadêmicos, por muitas vezes engessados pela burocracia e tomado por cabeças preconceituosas, e ali criar.
• Tomando como ponto de observação as atividades realizadas no Centro da cidade, acredito que o transeunte é tímido, mas extremamente curioso. Ele tem pouca coragem de chegar mais perto, ter um contato maior, mas fará de tudo parar observar cada detalhe das ações. O Transeuntes usa a cidade, a deixa viva, móvel, forte. Praças pacatas tornam-se palco de movimentos, ações. E isso afeta o transeunte, que enxerga aquele local de outra forma, não apenas um trilho de passagem.
• Participo também do Murundum, grupo de dança contemporânea, e aplico muito no Transeuntes a força do corpo do dançarino nas ações que fazemos. Cuido do espaço negativo e desenho meus movimentos no espaço.
• Qual a importância das reuniões mais teóricas, com a leitura de textos prévios como alimento (ou não) das práticas? Ou seja, as reuniões teóricas, bem como os textos, alimentam as ações práticas? Por quê?
• A teoria alimenta a prática, isso é fato. Ao estudarmos autores consagrados, puxamos esse conteúdo de ideias para nós. Pensamos nas atividades que já foram realizadas em outros países e consideramos fazê-las. A leitura é muito importante. Acho que o que disse na questão 3 cabe aqui.
LUIS FIRMATO
• Estou no grupo desde o primeiro semestre de 2012, quando da primeira reunião até o dia primeiro de dezembro de 2015
• Me interessei principalmente pelo caráter subversivo do grupo. Suas temáticas que incluíam os desejos e questões pessoais, além da pesquisa de linguagem da performance.
• Acredito que contribuía de modo satisfatório. Sempre procurei relacionar as leituras indicadas com outros textos e experiências pessoais fazendo conexões que de algum modo contribuíssem com a leitura, inclusive indicando outras leituras provocadas pelas discussões. Quanto as ações tentei durante todo o período que estive ligado ao grupo corresponder com as ações propostas pelos outros pesquisadores assim como propor ações. Em nossas conversas procurei sempre apontar as fragilidades dos trabalhos realizados apontando possíveis modificações e reestruturações que ajudassem a valorizar, assim como ouvia as considerações a partir das minhas propostas modificando-as. 
• O Transeuntes talvez seja o único grupo de pesquisa da UFSJ que de fato trabalho no âmbito da cidade de maneira efetiva. Nem mesmo os grupos do curso de Arquitetura o fazem tão verticalmente. Visitamos mais de 30 bairros em SJDR e conhecemos diferentes modos de ver e viver a cidade. 

Os temas ligados ao feminismo, discussões de gênero, crítica ao consumismo e a relação entre o corpo e a cidade são explorados cotidianamente na prática do grupo e em seus modos de relação. Diversas discussões sobre esses temas vão além da pesquisa e leitura de textos. Surgem nas intervenções e ações na rua, nas discussões e debates do próprio grupo, que por englobar estudantes de diversas realidades e experiências diferentes consegue enriquecer suas conversas e pesquisa com distintos pontos de vista. 
• São João del-Rei é uma cidade que comporta uma realidade cotidiana atrelada a seu passado histórico principalmente em suas construções monumentais ligadas à igreja católica. Qualquer uso distinto oferece estranhamento e ocorrem tentativas de diluição. As ações dos Transeuntes operam então em um lugar de grande destaque já que oferece novos modos de ver e usar o tecido urbano. Se não é possível nem tão pouco desejável desestruturar os usos vigentes, oferecemos a oportunidade de experimentação distinta das estabelecidas muitas vezes dando visibilidade à práticas e narrativas excluídas dos modos oficiais de conservação e legitimação da cidade.
• Acredito que minha presença no Transeuntes tenha sido definitiva para minha formação. Foi neste grupo que experimentei de fato o corpo na rua, a relação com a performance e a perfomatividade e onde de fato vivi processos. Amadureci junto ao grupo ao mesmo tempo que amadurecia dentro da graduação. Onde um lugar alimentava o outro em uma troca frutífera. Podia experimentar no grupo Transeuntes experiências das aulas, textos e discussões. E levava para as aulas e outros projetos as experiências que vivia no grupo. Poucos são os lugares onde se pode experienciar a vida profissional como neste grupo. Por meio das viagens e apresentações pudemos vivenciar diversas situações muito próximas  das vividas no meio profissional. 
Acredito também que pude utilizar o grupo como um lugar para exploração de diversas práticas vividas em outras instâncias. Como monitor de oficinas e alongamentos pude oferecer ao grupo, e naturalmente a mim mesmo, diferentes práticas de alongamento e experimentar possibilidades que de modo definitivo me ajudaram a construir um arsenal de exercícios que utilizarei em situações de direção, lecionando e mesmo em minha prática pessoal. 
O Transeuntes é sem dúvida o projeto que corresponde com o seu lugar de ensino, pesquisa e extensão. Já que consegue transitar neste tripé, seja efetivamente em suas ações na rua ou nas ligações e conexões com outras disciplinas, projetos e ações.
Acredito que o que eu quero com o teatro seja bem próximo à rotina do grupo. Suas discussões e práticas exigem compromisso e envolvimento e demonstram na prática o que o teatro e a profissionalização exige. Saio do grupo por questões pessoais, mas é um pedaço de mim que morre. Foi neste grupo que me formei e que amadureci como estudante, como profissional e principalmente como pessoa. Agradeço a todos àqueles que comigo compartilharam momentos no grupo e desejo que ele tenha vida longa e que continue com seu papel fundamental dentro da UFSJ. Que é o de oferecer novos modos de se fazer e pensar o teatro contemporâneo, desestabilizando as práticas vigentes e os usos codificados do corpo, da cidade e do pensamento.
MARIA GABRIELA PEREIRA LUCENTI
• Minha aproximação foi em agosto de 2014, tendo participado como produtora (no sentido contra regra) na apresentação em Fortaleza e, posteriormente, na Bienal da UNE em janeiro de 2015. Minha entrada como “proponente” e “atriz” se deu em março de 2015.
• Proximidade com o orientador (tanto em linha de pesquisa, quanto pessoal/afetiva); interesse pela linguagem pesquisada; possibilidade de apresentar para púbicos mais variados.
• Tive um ano muito ruim, e isso refletiu em meu trabalho em todas as áreas do grupo (e em outros grupos dos quais participo também). Gosto da forma de trabalho do Transeuntes, onde há horizontalidade e incentivo à participação de todos e todas.
• Gosto do modelo de pesquisa do transeuntes, que trabalha acerca da pergunta “sobre o que quero falar”. É um formato que atrai pessoas interessadas em debater questões de cunho social. Esses debates são importantes 1: porque são; 2: são tendências acadêmicas e sociais, favorecendo nossa entrada em congressos, seminários, festivais...;3: é característica (desde muito tempo atrás) do teatro que seja envolvido, engajado.
O transeuntes se propõe a pesquisar performatividade, conceito relativamente novo e ainda pouco assimilado pelas grandes populações urbanas. É uma aplicação prática dos conceitos aprendidos nas universidades às comunidades. No Brasil, o teatro e a performance, bem como outras artes contemporâneas, não são devidamente difundidos e, por isso, não são compreendidos ou absorvidos por não estudiosos do assunto. Mesmo em estudiosos, por se tratar também da estética emergente, muitas ideias se misturam e confundem.
O objetivo do grupo é entender o que já foi e ainda está sendo pesquisado de forma teórica e prática, incluindo a cidade e a população.
• Durante os ensaios do inverno cultural, tivemos aquele caso interessando do menino passando por nós no momento de tortura das bruxas. Ele não entendeu o que era, fazendo o que achava certo, porém, com meios errado (talvez!), nos ameaçou. Após explicarmos (400 vezes!) que se tratava do ensaio de uma peça, ele foi embora ainda nos intimidando. Ele nos assistiu nos dói dia de apresentação, e levou muito amigo que, provavelmente se não tivesse ocorrido o episódio, não teriam ido.
Só por isso eu acredito fundamental o contato que o transeuntes se empenha em manter com a comunidade. Apesar de acreditar na arte como dos principais agentes modificadores da sociedade, não tenho a ilusão de que vou modificar o mundo e atingir milhões de pessoas com meu teatro ou minhas ações artísticas. Entendo que é um trabalho árduo, de formiguinha, e que está sentamos cumprindo bem.
• Como já disse, não tive um bom ano. Sendo assim não creio que contribui muito nos pic Nietzsche, poucas vezes consegui ler os textos a tempo. Ainda assim frequentei-os pois gosto da proposta e acredito que as discussões também instruem.
Quanto aos treinamentos (oficinas ministradas pelos (as) integrantes), realizei-o com a entrega necessária, buscando assimilar em mim o que funciona nos outros para estimular nossa criação. Não propus muitos treinamentos ou aquecimentos por insegurança em ministrar. No grupo, me sinto segura e amparada, o que favorece minha entrega.
Apesar de tudo, me sinto também importante ao grupo devido a minha postura apaziguadora (com exceções!) e honesta.
Que o ano que vem seja bem melhor (e será!)
GUILHERME SOARES
• Entrei no grupo quando estava no 2º período entrei logo no final do ano, por compromissos na quinta feira não pude entrar no grupo no começo do ano
• Eu conheci o Curso de Teatro através do Transeuntes, um dia eu matei meu cursinho e vi a apresentação que o grupo fez no Inverno de 2014, eu sempre tive interesse no curso mas não achava nada na internet que pudesse me informar, então no fim da apresentação quando as pessoas se apresentaram eu anotei alguns nomes e adicionei no facebook, foi quando conheci o Luis e a gente marcou de se encontrar e ele me mostrou o prédio, as salas, e  me falou sobre o curso e o sobre o projeto, minha idéia inicial era participar, mas quando já estava no curso descobri que o encontro eram nas terças e quintas, e eu já tinha compromisso na quinta. Eu acho que minha motivação inicial que me fez querer participar do grupo foi porque eu adoro comédia, e vi na apresentação do Morra, apesar das cenas forte um toque de comédia e ironia, e isso me chamou muita atenção
• Eu cheguei boiando, não sabia o que era Picnitche (não sei se está correto) e nem sobre os outros autores, mas eu perguntei e o Diogo me explicou sobre os textos quanto ao preparo das ações eu tento dar o melhor, apesar de não ter atuado nesse tempo eu fiz tudo o que os atores fizeram, alonguei e fiz os exercícios que foram muito bons pra mim porque eu tenho um corpo muito duro e eles me ajudaram a soltar mais
• Eu acho super importante essa linha de pesquisa sobre vamos dizer os preconceitos da sociedade, como falar sobre religião sexualidade gênero, pois como é um grupo que está na rua, temos todo o tipo de publico presente que de alguma forma quando for ver vai se identificar com aquilo. Se fosse um grupo de ópera que se apresentasse no teatro, somente os amantes de óperas iriam ir vê-lo, mas nós somos um grupo de rua onde todos os temas discutidos são interesse das pessoas que estão na rua, elas ficam com a pulga atrás da orelha quando nos assistem, e se perguntam: será que eu ajo assim? Será que eu faria o mesmo nessa situação, ou até se identificam em algumas partes
• Eu acho super importante o trabalho na rua, até porque é o nosso espaço de trabalho, mas eu ainda vejo São João Del Rei com um pouco de preconceito em relação ao teatro, vejo que pessoas olham estranho, comentam e até dizem: Ah deve ser o povo do teatro, quando o Transeuntes está fazendo alguma ação pela cidade. É como um estranhamento para a população, ainda mais com as pessoas mais velhas que acham que o teatro é dentro do teatro e algo na rua é como se fosse baderna (minha opinião)
• Por enquanto eu só estou no Transeuntes, pois os outros projetos não me chamaram atenção, pois ou o dia não batia ou era sobre dança e eu não gosto muito de dança, eu tenho um projeto que participo desde 2014 que é o Doutores por um Triz onde visto de palhaço e vou no Albergue, Santa Casa e Hospital e agora comecei nesse fim de ano a participar do novo projeto Araci. E espero que em 2016 eu continue nesse e possa me identificar com algum outro.
RICK RIBEIRO
• Minha entrada no grupo Transeuntes foi no segundo período do curso de teatro em agosto de 2014.
• Inicialmente, meu interesse pelo grupo veio a partir da identificação com teatro de rua, que já tinha uma experiência nesse meio antes de entrar na graduação. A performance e teatro performativo ,que para mim ainda era novo também foi uma importante motivação e a minha preferência de área teatral se consolidou dentro do teatro pós-dramático devido a participação no grupo. Também fui motivado pelo meu interesse a pesquisa da pratica performática e pela representação em cena. A construção a partir das temáticas que levantavam assuntos sociais, com um questionamento através de processos criativos e artísticos na rua, me despertou uma motivação ativista em que era um espaço de criação performática suscitando temas atuais que precisam ser evidenciados. Outra motivação foi a experiência com a representação pelo fato de me identificar menos com a interpretação. E acreditar no trabalho corporal do grupo com a  representação.
• O grupo tem um formato colaborativo, que propicia o envolvimento de todos os membros a cerca das ações e propostas para montagem. Existe um espaço para a proposta de cada membro. Dentro de um processo de construção acredito ser válido todas as propostas e particularmente me vejo no grupo com propostas e pontos de vista que através de uma reciprocidade dos membros, o manifesto, ideias e ações criativas são úteis e esboços de pesquisas pessoais são trabalhadas e atendidas tomando perspectivas em um conjunto dentro dos limites quantitativos de propostas.
• Acredito que as temáticas como o feminismo, gênero, relações sociais entre outras que o grupo trabalha, são de extrema importância, é o questionamento de um assunto em pauta na atualidade são assuntos que necessitam de uma evidência que pode ser através da Arte como um manifesto, o grupo traz essa reflexão ou questionamento social sem um convite formal, intervindo o espaço urbano, e um espectador cidadão, pode ter conhecimento ao tema em sua participação com a intervenção performática proposta pelo grupo. Julgo que o  questionamento social deve está nas ruas, atingindo todas as camadas populares. A arte como manifesto fora de um espaço fechado e especifico atinge um número da população que não é elite. O público urbano tem uma relação direta com a apresentação performativa que interviu sua rotina e uma participação com a temática proposta que esta é evidenciada através das ações e reconhecidas por estes espectadores como temas atuais, ou os espectadores que desconhecem a temática, passa a ter conhecimento desses fatores ou problemas sociais com a relação das intervenções do grupo. 
• A cidade é uma espaço físico, que pode ser apropriado, ou pode sofrer uma intervenção ,o teatro feito na rua pode trazer novos significados  aos espaços urbanos. O público passa ser participante da construção criativa do grupo, e a cidade passa a ser um espaço de envolvimento entre público e artista através de uma relação mais intimista, a reação dos espectadores-transeuntes da rua é um elemento construtivo para o teatro performativo do grupo que faz suas experimentações na rua. Espaços urbanos que antes eram despercebidos passam a serem notados após a ocupação do grupo. Espaços desvalorizados que mostram a diferença de classes e valores culturais da cidade são espaços de preferência para as atividades do grupo, gerando uma nova significância de espaços em áreas abandonadas pelos poderes executivos.
• Deus é Fiel - Marca Registrada, o espetáculo é um trabalho em que me orgulho, foi uma grande experiência de transformar pesquisas a cerca dos temas: lucro através da religião, submissão da mulher na atualidade e a homofobia, em material cênico. Os textos a partir da discussão da performance é um conhecimento um tanto válido. Vejo a encenação performativa do grupo Transeuntes como um escape de uma construção a partir do realismo e tanto rica de pesquisa e retificações de temas sensíveis socialmente, e um grande envolvimento a uma prática contemporânea.
JUNIO CARVALHO
• Primeiro período do ano de 2013
• Minhas principais motivações, desde o início, são a possibilidade de estreitar fronteiras entre a cena e o público e a pesquisa ser provocada a partir de incômodos do grupo.
• Acredito participar efetivamente das ações do grupo, seja nas proposições de oficinas, alongamentos e outras práticas corporais; seja na postura crítica perante as discussões. O horário e o cronograma poderiam ser melhor articulados no que diz respeito ao cumprimento dos horários.
Me movo dentro do grupo segundo as provocações advindas das pesquisas do grupo, das quais procuro me alimentar e regar.

• Considero todas as temáticas trabalhadas até hoje plausíveis e necessárias de serem repetidas como preceito de resistência social, pois acredito na força que o grupo pode ter diante possíveis rupturas de conservadorismos/tabus sociais. É difícil atender todas as demandas pessoais, porém podem ser melhor aproveitadas no processo de criação.
• Com atenção, presença e ânimo nos olhos, o Transeuntes consegue atingir o efeito do entusiasmo e do prazer do público, fazendo com que este se coloque em cena e queira participar do evento.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


Deus é Fiel-Marca Registrada
SEPOGA


O I Seminário da Pós-graduação em Artes na UFMG: pesquisa em andamento foi espaço para a apresentação artística do Grupo Transeuntes. O evento SEPOGA foi organizado pelos alunos de Pós-graduação em Artes na EBA e da UFMG durante o mês de outubro. O evento promoveu a discussão e o compartilhamento de pesquisas em andamentos, favorecendo o conhecimento acadêmico através da interação de pesquisas nas áreas como artes plásticas, cinema e tecnologias¹.
O grupo Transeuntes, enquanto participante do evento, destaca a visibilidade e a acessibilidade à experiências interdisciplinares e, o espaço para um diálogo direto com parte da comunidade externa presente. No dia 22 de outubro, o grupo Transeuntes participou do evento, apresentando um fragmento do espetáculo Deus é Fiel-Marca Registrada. As cenas O baile do Deus Moto e O culto da Igreja Transversal, foram escolhidas para uma amostra do espetáculo performativo que aborda temas como o lucro a partir da fé alheia, a homofobia, o racismo, a submissão da mulher na atualidade e extremismos religiosos que atacam e destorcem identidades não normativas. Tais questões que foram discutidas ao final da apresentação. A conversa concretizou-se com perguntas dos espectadores aos integrantes do grupo. Essas perguntas tinham como temas o percurso criativo do grupo a partir de uma temática, a pesquisa performática na rua, a utilização do espaços urbanos e, como as ações vão se desenvolvendo desde de 2012.

O grupo Transeuntes também compartilhou sua experiencia em pesquisas praticas que contribuíram para a composição do espetáculo Deus é Fiel -Marca Registrada. A experiência que o espetáculo absorveu da prática teatral na rua, a relação com espectador transeunte da cidade de São João Del-rei durante as apresentações, foram outros pontos relevantes entorno da pesquisa.








1 http://www.sepoga.com.br/#!evento/conr

domingo, 29 de novembro de 2015

Casa aberta: arte e pesquisa

O II Seminário Internacional Casa Aberta aconteceu de 26 de outubro à 8 de novembro. O seminário ocorre em consonância com a semana acadêmica do curso de teatro. No dia 30 de outubro alunos do curso de graduação em teatro da UFSJ se encontraram para trocar as experiências profissionais e acadêmicas na forma de comunicação oral. O grupo Transeuntes – Urbanidades marcou presença com estudos realizados a partir do espetáculo Deus é Fiel- Marca Registrada. Acentua-se a produção científica estimulada pelo grupo e a dedicação à pesquisa que o espaço acadêmico reflete. Os trabalhos podem ser encontrados na íntegra no livro Pequeno mapa de encontros e afetos organizado pela Professora Doutora Juliana Mota do curso de teatro. Abaixo encontram-se os títulos publicados e seus respectivos autores.

Notas sobre a cidade atravessada: as inserções do projeto urbanidades em são joão del-Rei – breve estudo sobre a encenação – Deus é Fiel- Marca Registrada.
Iolanda de Lourdes, Ines Link, Luis Firmato e Marcelo Rocco.



A reação transeunte frente a um espetáculo performativo: um estudo sobre Deus é Fiel- Marca Registrada.
Kauê Rocha

A submissão e o direito da mulher a partir do espetáculo Deus é Fiel- Marca Registrada.
Diego Machado e Fernanda Junqueira



A relação do corpo e as materialidades do espaço urbano como potencializador da dramaticidade da cena.
Edder Cardoso







A REAÇÃO TRANSEUNTE FRENTE A UM ESPETÁCULO PERFORMATIVO: UM ESTUDO SOBRE DEUS É FIEL - MARCA REGISTRADA

KAUÊ ANTONIO DA SILVA ROCHA1


ENSAIO E REAÇÃO
       

       Quando se inicia o processo de montagem de um espetáculo na rua, todo ensaio é vivido como a apresentação oficial. O público se forma gradativamente: alguns passantes interrompem seu percurso para acompanhar a inabitual movimentação em certo espaço da cidade; outros pelo menos observam as ações até seguirem seu caminho adiante, outros veem as cenas dos locais que estão; além das pessoas que já estavam no espaço de ensaio e foram surpreendidas pelo grupo. A cidade não está disponível para as sequências de ensaio que todo ator e diretor deseja (CARREIRA, 2010, p. 5)2. Desse modo, pode-se esperar qualquer tipo de reação da plateia formada, desde admiração e riso a ojeriza e revolta. Entretanto, quando se põe em prática aspectos conflitantes, como a montagem de um espetáculo cujo tema é a crítica a exploração da fé em uma cidade dominada por igrejas históricas e grande parte da população religiosa, os atores-performers preparam-se para enfrentar mais riscos durante o desenvolvimento das cenas. Tomando como ponto de estudo as situações vividas pelo grupo Transeuntes durante os ensaios e apresentações do espetáculo DEUS É FIEL – MARCA REGISTRADA em julho de 2015, vamos perceber as diversas reverberações das pessoas perante momentos que subvertem os fluxos da cidade.
         O espetáculo se constrói pelas ruas da cidade sendo guiado pela orientadora Abiqueila3, ocupando espaços do Centro e evidenciando a composição dos atores-performers, que criam figuras e personas e/ou personagens, escrevendo um texto urbano que critica extremismos religiosos que desprezam e atacam certas identidades, abordando temas como o lucro a partir da fé alheia, a homofobia, a submissão da mulher na atualidade (GASPERI,2015)4.


1 Graduando do curso de licenciatura em Teatro (COTEA), da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Bolsista/voluntário do curso de extensão Urbanidades. Estudante-pesquisador do grupo de pesquisa Transeuntes, cadastrado pelo CNPQ. Bolsista do Programa de Iniciação à Docência (PIBID Teatro). Membro do projeto de extensão Murundum- Grupo de Dança Contemporânea da UFSJ.
2 CARREIRA, André. A cidade como dramaturgia do teatro "de invasão". Disponível em: pt.scribd.com/doc/40287815/andre-carreira-a-cidade-como-dramaturgia#scribd. Acessado em: 30/09/15.
3 Interpretada pela atriz Lucimélia Romão.



Em um dos momentos da peça, uma bruxa é atacada por três anjos barrocos e amarrada em um poste; situação que desencadeia uma histeria coletiva e incentiva a orientadora a estimular a população a curar a mulher da bruxaria através de bolinhas oferecidas por dois vendedores. Esta cena faz referência à Fabiane Maria de Jesus, linchada e morta por moradores da periferia da cidade de Guarujá, em São Paulo, no ano de 2014, após ser acusada de sequestrar crianças para realizar magia negra. Durante os ensaios, tal cena sempre chamou a atenção dos transeuntes; entretanto, até metade deles, não houve nenhuma interrupção externa. Por mais que essa situação vista incitasse alguma interferência, o público parecia sentir a energia do grupo e ter receio de invadi-la. Porém, em certo ensaio, no ápice da histeria, dois jovens alheios à peça, que passavam pelo local, se aproximaram e pararam a cena, questionando o que estava acontecendo. A orientadora improvisou seu diálogo, tentando incorporar a cena à interrupção e convidando os rapazes para ajudarem a curar a bruxa. Um deles se afastou; o outro, desinteressado com a proposta feita e com a crença de que o fato era real, acusou o grupo de machucar a mulher amarrada ao poste e de causar barulho em sua vizinhança. Naquele momento, houve uma diluição entre o real e o ficcional, ocasionando uma quebra na energia dos atores imersos na cena. A inversão dos papéis sociais daquele momento, onde o pedestre se tornou uma figura de autoridade, despertou diversas respostas improvisadas dos atores. Depois de tentativas de trazer o jovem para a cena, atingiu-se o limite de uma possível jogo com ele, quando o mesmo disse que "daria tiros" caso o fato não parasse. Foram feitas várias tentativas, mas o grupo não conseguiu resolver a situação por meio da própria cena. Após este acontecimento, o diretor e os atores, temendo uma retaliação mais grave, comunicaram a ele que tal situação fazia parte do ensaio de uma peça de teatro, não sendo real. Visivelmente confuso, constrangido e posto em evidência, o rapaz iniciou uma série de justificativas, pondo em contradição pontos que havia falado. Encaminhado o ensaio para o espaço da cena seguinte, a atriz que interpreta a bruxa amarrada5 chamou o jovem para conversar, explicando sobre o grupo e convidando-o para assistir a apresentação. Essa situação, nesse dia, foi encarada pelo grupo como um dos momentos de maior risco vividos durante o processo, devido ao fato do risco físico dos atores. Segundo Carminda Mendes André, inspirada no livro O Teatro Pós-Dramático de Lehmann (2007), o risco é ao mesmo

4 GASPERI, Marcelo Eduardo Rocco de. Sinopse do espetáculo Deus é Fiel - Marca Registrada. Disponível em: www.invernocultural.com.br/wp-content/uploads/2014/05/guia-de-eventos_SJDR-281C2.pdf .Acessado em: 30/09/15.
5 A atriz Iolanda de Lourdes

tempo uma realidade da rua e um estimulante para o artista (ANDRÉ, 2007, p. 61)6. Curiosamente, nos dois dias de apresentação, o rapaz estava junto ao público, trazendo outros jovens de seu bairro para assistir ao espetáculo. Tal fato teve grande importância, já que mostrou o entendimento do rapaz em relação à cena e a presença de um público que possivelmente não está acostumado a ir ao teatro. Depois de vivenciar um momento crítico, os atores/performers puderam acrescentar na cena de histeria coletiva suas reações vividas com a possibilidade de uma interferência.

             Segundo Carreira (in LIMA, 2008), o risco físico permite a difusão de percepções dos atores                a partir dos possíveis efeitos dos seus gestos e deslocamentos, sobretudo quando os atores se                colocam em espaços não confortáveis e desconhecidos. Portanto, o risco revela-se como a                     possibilidade de imprevistos, e até de perigo à integridade física        
                         (CARREIRA apud GASPERI, 2010, p.17)7

      O espetáculo DEUS É FIEL - MARCA REGISTRADA usa de espinhosos temas para provocar os espectadores a uma reflexão sobre seus extremismos e preconceitos. Essa provocação lançada suscita no público diversos tipos de reação. Estando o espetáculo na rua, o espectador tem uma maior liberdade de evidenciar para o restante do público suas impressões.
Esse local específico e único, muitas vezes aberto à própria cidade, e às eventuais interferências dos espectadores-atuadores, vai trazer ainda a questão do inesperado, do diálogo e da incorporação do acaso dentro da obra. Como Glusberg aponta, "deve-se ter em mente que o elemento inesperado na performance é inesperado não só para o espectador, [...] mas também e primeiramente ao artista de performance, cujo trabalho sempre tem um aspecto de inesperado" (GLUSBERG apud ARAÚJO, 2009, p. 254)8


6 ANDRÉ, Carminda Mendes. O Teatro pós-dramático na escola. 2007. 206 f. Tese (Doutorado em Educação)– Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2007. 7 GASPERI, Marcelo E. R. A aproximação entre a cena contemporânea e o espectador transeunte na sociedade espetacularizada: as margens do feminino: agrupamento Obscena. 2010, 103f. Dissertação (Mestrado em Artes) - Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Belo Horizonte (MG), 2010.
8 ARAÚJO, Antonio. A encenação performativa. Disponível em: www.revistasusp.br/salapreta/article/view/60357 Acessado em: 30/09/15

              O grupo também presenciou outro momento de interferência de um espectador durante os ensaios em julho. Nesse caso, a cena estava sendo realizada nas escadarias do Teatro Municipal e, como de praxe, um pequeno público se formou ao redor dos atores. Nela, a orientadora Abiqueila tentava "curar" um homem manco e um homossexual, pedindo para isso uma contribuição monetária mensal e entoando cânticos acompanhada de sua banda. Um cidadão presente nesse público tirou seu celular e começou a filmar o ensaio, o que não foi visto como problema pelo grupo num primeiro momento. Todavia, o homem, que se identificou como um professor do curso de Arquitetura, começou a gritar críticas ao grupo enquanto realizava a filmagem, virando a câmera para si e lançando críticas até mesmo ao curso de Teatro, condenando os atores por usarem um espaço público da cidade para realizar algo, segundo ele, errado. Inicialmente, houve revolta por parte do grupo, que chegou a iniciar uma discussão com o homem, questionando os argumentos do mesmo para censurar o ensaio. Mas, visto que ele fazia críticas com poucos fundamentos e apenas para provocar, os atores incorporaram a interferência à cena, cantando uma das músicas do espetáculo para ele. Vendo que seu jogo de exposição havia sido comprado, o homem desligou o celular e se retirou. Essa situação durante um ensaio incentivou o grupo a pensar sobre as inúmeras respostas do público diante do espetáculo, ocasionando a posterior realização de um exercício em que os próprios atores se colocavam no lugar da plateia, criando atitudes que pediriam improvisação.

 CONSIDERAÇÕES FINAIS
                    
           De acordo com André Carreira, reconhecer a imprevisibilidade significa aceitar a possibilidade, ainda que momentânea, de uma completa inversão de papéis sociais, e até mesmo da desorganização da ordem estabelecida (CARREIRA, 2010, p.5)9. A cidade vive um fluxo contínuo e intenso, com os pedestres se deslocando pelo espaço sem muitas vezes percebê-lo. Quando essa rotina costumeira é cortada pelos ensaios de um espetáculo de rua, o transeunte se vê como testemunha das ações, despertando seus princípios e formulando questões. Cabe a ele expor suas opiniões ao grupo ou seguir seu curso. Os momentos vivenciados pelo grupo durante os ensaios desenvolveram várias reverberações que foram posteriormente aplicadas no espetáculo. Trazer o espectador a cena, improvisar com ele e conhecer seus argumentos fortalecem as ideias.


9 CARREIRA, André. A cidade como dramaturgia do teatro "de invasão". Disponível em: pt.scribd.com/doc/40287815/andre-carreira-a-cidade-como-dramaturgia#scribd. Acessado em: 30/09/15